Pedro gostava de pouco

Pedro não gosta de muitas coisas. Só se ocupa de duas: Ilíada e Odisseia. Da capa de um livro que o pai colocou na rua, com uns desenhos bonitos de ver e que ele recuperou e escondeu debaixo do colchão. Da capa desse livro ele tirou os nomes com que batizou a bicicleta avoadora e a caixa de guardar beleza. “Velharia”, o pai de Pedro resmungou quando ele perguntou o que eram aqueles nomes bonitos. Vai ser a coisa de gostar quando aprender a ler rápido, o livro. Porque tem muitas figuras e muitas palavras que Pedro ainda não conhece.

Pedro, tirando a escola, que vive atrapalhando ele de aprender, como explica sempre para a mãe, gasta os dias tentando fazer Odisseia lembrar como é voar. Enquanto procura meios razoáveis para a função básica de Odisseia, trabalha numa opção mágica e, claro, mais complicada de realizar: colecionar as belezas do mundo dentro de Ilíada, a caixa que ganhou de presente de um vizinho que se esqueceu de entregar o presente em suas mãos, deixando o tesouro na frente de casa, não tendo por pouco sido levado pelos homens de laranja no seu carro engolidor de desnovidades. Não entendia por que as poucas coisas que importavam eram indesejadas.

O plano básico é onde Pedro deposita mais esperanças. Desce as ladeiras com velocidade, segura o leme com força, fecha os olhos, dá um tranco na bicicleta para cima e experimenta por um momento o poder de Odisseia – a bicicleta avoadora. Mas ela parece ter mesmo desaprendido o seu ofício. Pedro segue o mesmo ritual todos os dias nas ladeiras perto da sua casa. A frustração dura menos que o voo. Se o sol bate no rosto de Pedro, ele se esquece de todo mal; se esquece como Odisseia se esqueceu de voar muito. Se o vento lhe lambe o rosto negro, o nariz orgulhoso, pronto, esquece-se de tudo; se esquece que o irmão nunca veio para casa depois de vir ao mundo. Se esquece que seus pais escondem o choro, cada um num canto da casa, e às vezes os dois em horários diferentes, no quarto do irmão que nunca veio.

O plano mágico é bem difícil. “Difícil é divertido”, anima-se. Tem muita coisa-beleza para colecionar no mundo. Tem o sol, que sempre escapa. E o vento, que escapole. Tem a terra, que sua mãe não deixa entrar em casa. Tem as pedras, que machucam Ilíada, e que por isso não pode ser. Pedro ouve uma conversa de que vem uma lua agora que nunca veio antes. Ele já tentou guardá-la na caixa também, a lua. Mas ela não devota, como o sol, a mesma fidelidade ao rosto de Pedro, nem sempre aparece. Quando vem, a lua, ele perde horas no quintal de casa, paralisado admirando a luz branca, surdo para os chamados de sua mãe. Já leva o cobertor que é para não ser obrigado a usar roupas gordas. Se diverte pensando que cor que faz no seu rosto de noite a luz da lua branca. Sorri. Quis guardar o sorriso na caixa. Tateou ligeiro por ela ao seu lado, mas o sorriso tinha sorrateiramente ido embora. Olhou para cima, e enquanto o brilho se escondia atrás de nuvens sem nome, decidiu que teria que ir à fonte. Falaria com os pais na janta. Estava decidido.

Entrou pisando firme em casa, subiu para o quarto, tomou um banho longo, ensaiando as palavras. Pôs sua roupa de coragem e desceu para a janta sem que sua mãe precisasse chamar.

– Olha, pai, Pedrinho não esperou meus gritos de assustar vizinho hoje.

– É, mãe, acho que hoje a fome desceu ele escada abaixo.

Pedro sorri burocraticamente, quase plástico.

– Tudo bem?

Pergunta sua mãe, conferindo.

– Tudo sim.

E volta ao rosto de Pedro o sorriso enquadrado. Enquanto os pais se servem, ele os observa, apreensivo. O prato vazio, os talheres à mão.

– Queria falar uma coisa pra vocês.

– Hum.

– Coisa de gente grande.

– Hum.

– Vou falar então.

– Hum.

– Vou viajar.

– …

– Preciso encontrar as coisas-belezas dos outros lugares que não conheço. As daqui todas eu já tentei, nada fica fácil dentro de Ilíada.

– Ilíada?

– É.

– Quem é?

– A minha caixa de guardar beleza.

– Ah.

– Então eu tenho que viajar pros outros lugares.

– Hum.

– Tá?

– Claro, Pedrinho. Amanhã papai vê isso.

– Mas eu vou hoje já.

– Tudo bem, filho.

– Vocês não vão ficar tristes?

– Com você? De jeito nenhum.

Pedro não sabe o que sente. Esperava despedida chorosa, os pais disputando seu último abraço. Um adeus demorado, quase infinito. Nada. Era um misto de ansiedade pela partida e decepção.

– Vou deixar pra jantar no meu outro lugar.

– Certo.

– Eu amo vocês mesmo longe.

Pedro quase deixa escorregar uma lágrima de criança gente grande, mas resiste. Engole. Sorriso enquadrado no rosto.

– Ah, filho, mamãe também te ama.

Pedro se detém olhando para os pais mastigando o jantar. Sem trocar olhares entre si, ou com ele. Decide que dizer adeus não faz sentido. Sai da mesa em direção ao quintal.

– Não esquece de escovar os dentes, Pedrinho!

A mãe ainda gritou numa voz de três vezes ao dia, pelo menos. Pedro olhou para trás e, antes que a tristeza tomasse conta, virou para frente, bateu os olhos na sua Odisseia quase saindo sem ele de tão ansiosa, em Ilíada dentro da cestinha da avoadora e no livro, sua coisa de gostar depois. Tudo pronto. Pedro montou Odisseia e saiu voando do quintal.

Anúncios

11 comentários sobre “Pedro gostava de pouco

  1. Lindo, lindo, lindo!
    Lembrei dos meus livros de Monteiro Lobato, nas viagens que eles me proporcionavam e deliciei-me lembrando de quando eu também era Pedro.

  2. Todos nós temos essa tal caixa de guardar beleza, a medida que os anos passam essa caixa vai sendo esvaziada e ficamos como os pais de Pedrinho… mastigando o tempo e sem coragem de fazer a grande viagem para nosso interior na busca de nossa essência.

  3. Minha vida é um flash
    “De controles, botões anti-atômicos”.
    Lembrei-me do trecho da musica que fala de odisséia terrestre,
    Maravilha Léo! seu textos tem que ser lido à noite ao som somente dos grilos rs.

  4. Muito Bom!!! Por um instante me vi tentando guardar tanta coisa na minha caixa de guardar belezas …E Pedro não volta? Cadê suas novas belezas?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s