Na favela

Desceu do ônibus calmo como sempre, a paciência era sua maior virtude. Teria quarenta minutos até chegar ao barraco de dois cômodos que dividia com mãe, esposa e seis filhos. Começou a subida do morro. A favela formaria um labirinto para um visitante, mas ele, nascido na comunidade, tinha os caminhos memorizados. Acompanhou a involução à medida que o morro era ornamentado por concreto, madeira e papelão. Com a perda rápida das árvores e os córregos substituídos por esgoto a céu aberto. Onde o chiar dos pássaros dava lugar ao escapamento de motos, louvores evangélicos e, periodicamente, um tiro ou outro.

Acenava com a cabeça num leve balançar ao topar com conhecidos, e se indignava com a música que saia das casas: funk. Gostava mais quando o som do morro era só o samba. Mas não poderia fazer nada quanto a isso, entretanto impediu que a praga tomasse conta da sua própria casa.

Todo dia repetia o trajeto e todo dia pensava na vida, na sorte em que tivera de não perder nenhum filho para o crime e das filhas não terem pegado barriga. E ria, ria muito quando a família vizinha caía em desgraça, mais ainda se ouvia choros e gritos ao saber que algum tinha morrido em confronto com a polícia.

Sua mulher e sua mãe não faziam parte do grupo de fofoqueiras da viela. Nunca se colocavam na porta e na janela para tomar conta da vida dos outros. Ficavam em casa, zelosas a esperar o excelente marido e filho que tinham. Podiam passar apertos financeiros, pois ele era o único provedor da casa, mas nunca deixou faltar comida. Orgulhava-se também de ter sua ficha limpa, sem nenhuma passagem pela polícia, um exemplo!

Chegou ao batente de casa, olhou desconfiado para os lados, com receio de que olhos curiosos invadissem seu castelo. Enfiou a chave na fechadura, girou duas vezes, entrou rápido batendo a porta.

– Boa noite, família!

Como resposta, recebeu apenas dezesseis olhos amedrontados ou raivosos. Não ligou. Afinal, não se fala com as bocas amordaçadas, mas um dia entenderiam que os acorrentava no aperto do barraco, para que a sujeira do mundo não tomasse conta da casa deles. Era amor puro.

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20 comentários sobre “Na favela

  1. O que eu mais gosto nesse conto é a apresentação do novo autor. Ele faz uma quebra no estilo de Grenivel, evoluida renovação libertária que me deixou muito feliz.

  2. Quando eu li “16 olhos amedrontados” pensei logo em uma tragédia, confesso que o “ou raivosos” deu até uma aliviada no meu coração, kkkk. Legal o conto Gren

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