Sobre morte e bichos

Começou a chover e ele ali desprotegido, essa vida de andarilho não era fácil. Encontrou uma construção por terminar, abrigou-se nela e se pôs a ver a chuva cair. Fizera isso tantas e tantas vezes, não que fosse velho, era a cidade que só sabia chover. Sua vida consistia basicamente em perambular sem rumo em busca de alguma comida, ou de algo que na necessidade, fosse equivalente. Diversão era algo de rara frequência, quando a vida amanhecia menos dura e o estômago não doía tanto, pegava-se correndo contra o vento sob o sol que clareava tudo e enxugava a alma.

Amou rapidamente e sem cuidado alguns que apareceram em seu caminho. Macho ou fêmea, não importava, contanto que lhe saciasse a pulsão, não era necessário nem o despertar do desejo. Possuía alguns filhos que jamais conheceria e que se, por alguma trama do destino, viessem topar com ele em algum momento, teriam a mesma importância e significado de uma pedra, salvo se com ele fossem disputar território ou comida, aí sim, seriam inimigos em busca de embate.

A chuva passou. Caminhou sem pressa pela ruas mal iluminadas da noite que chegara sem anúncio. O comércio fechado, os restaurantes iniciando as atividades noturnas, a paciência lhe garantiria uma boa refeição mais tarde. Ainda era cedo, poderia aproveitar a companhia das estrelas que apareceram após o temporal, enquanto vagava despretensiosamente pelos becos. Um rato correu atravessando seu caminho, rosnou de leve mas o deixou passar, estava bem demais para querer ferir, continuou caminhando no seu passo calmo e tranquilo de quem não tem nada a fazer, nem nada a perder. Uma vitrine toda iluminada chamou-lhe a atenção, não compreendia do que se tratava, mas deixou-se parado no meio da rua a observar. Observar o que não conhecia era de sua raça, sendo ele e os seus, talvez, maiores conhecedores das coisas do mundo.

A rua escura.

Ele a observar.

Não viu os faróis.

Não ouviu a buzina.

Os freios não funcionaram.

– Droga! Que esse cachorro burro tava fazendo parado no meio da pista? Justo no fim do expediente?

– Será que dá pra salvar o coitado?

– Dá não, a roda esmagou a cabeça.

– Vamos fazer o quê?

– Fazer o quê? Vamos deixá-lo aqui, ué! Milhões de cachorros morrem todos os dias nas ruas, amanhã o carro da coleta recolhe.

– Pobrezinho… Acenderei uma vela pra São Francisco de Assis que é quem cuida da alma dos bichos.

– Bicho lá tem alma?

– Se não tivesse, não teria santo.

– Faça como quiser, agora vamos, senão quem vai morrer sou eu, de fome.

O corpo estendido ali, sozinho como sempre vivera, o sangue que escorria pintando de vermelho o negro asfalto, dava mórbida alegria à rua tão vazia e tão escura. A única luz presente era a da vitrine que o animal contemplara, uma livraria, expondo um velho conhecido das cotidianas tragédias: “O amor é um cão dos diabos”. O velho Buk rir-se-ia entre um gole ou outro de vinho.

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