Arvorecer

João tem os pés de árvore. A casca do tronco sobe até pouco mais da metade da canela e depois deixa ele ser menino. É marrom com preto com cinza a cor indecifrável de pele de ficar no sol, de pé, plantado. Só vive descalço. Tem os ouvidos feridos por dentro, por causa de uma coceira que tem. Coça por prazer mesmo.

Chega bem cedo à casa dos avós, antes de ir para a escola. Se planta lá até a avó Flora abrir a janela do quarto, e o avô Grigurinho abrir a porta da frente. Quase abre um sorriso ao ver a barba grisalha do velho farfalhar um bom dia. Antes que o avô estenda a mão pro menino entrar, ele corre para lá, cruza com a avó empunhando a vassoura de varrer doença para longe. Ela segue para o terreiro em frente à casa, e João só senta na cadeira depois que ela dá três vassouradas. Ou isso ou vó Flora poderia sumir, desaparecer, se esconder nos fundos do mundo.

João morde um pedaço amarelo do bolo de milho, bebe uns goles de café e fumaça e sai para a escola. Olha para trás e já vê o avô embalando o tempo na sua cadeira de balanço.

Na escola, João passa o tempo prestando a atenção no caminho que o giz da professora faz, no canto fino que ele solta enquanto passeia no quadro. Os colegas riem de João, põem nomes – cabeça de vento, olho de peixe, pé de lodo – o tempo todo, mas ele não reage. Não vê graça nas brincadeiras deles. Nas brincadeiras de correr para lá e para cá; de sujar as calças tão bem alvejadas de nuvem; de sangrar os dedos em linhas de pipa, sem prestar atenção no mundo. No intervalo, fica na sala dobrando os papéis, transformando as folhas do caderno em branco como sempre em bichos, coisas, muitos deles – dos bichos e coisas – só existem nas ideias de João. Antes de ir embora põe um bicho de papel na mesa da professora, que olha para ele por cima dos óculos, sorri, quando vai tocar em João ele vira as costas e sai, olhos cansados de tanta gente.

De volta à casa de areia e telha, ele almoça e descansa no silêncio que seus avós o ensinaram a guardar na hora das jantas e dos almoços. Pouco depois da mesa desaparecer, Grigurinho senta o menino na cadeira que fez aparecer para ele, de uma madeira velha que não era nada. E senta na cadeira de eternidade onde balança o corpo grande e esguio. Conta estórias com gritos e dizeres, com os desenhos feitos pelas mãos esculpidas pelo tempo e pelo sol, curtidas de muito trabalho. E João escuta e vê e imagina e passeia nos sons e nos sonhos que as estórias depois criam para ele.

– João? João?

Quando os olhos de João voltam para o trilho do mundo de cá, seu avô sentencia:

– Você sabe que eu vou estar sempre aqui, né? Vou estar sempre aqui pro meu neto. Ou aqui ou lá no umbuzeiro que você prefere escutar a subir.

João assente um vez só com a cabeça. Para não gastar o estoque de dizer-calado.

No dia seguinte, João chega à casa do avô na hora de sempre, mas a porta está aberta. Tudo fora do estar. A cadeira está do lado de fora de casa. Não está no balanço de sempre, mas balançam os corpos das mulheres da família, soluçando a despedida precoce do avô de João. João não entende o que acontece. Não conhece aqueles sons, aqueles movimentos convulsivos de dor e saudade. A única maneira de experimentar a eternidade na sua vida de menino pé de árvore sempre foi o balanço da cadeira de seu avô Grigurinho.

Ele se aproxima da cadeira na esperança de que o avô apareça. Abre a mochila, tira uma folha de criar bicho, dobra um passarinho no papel e coloca na cadeira. E nada. Faz desenhos desengonçados no ar com os braços magros, como sempre viu o avô fazer, e nada. Até que tem uma ideia: levar a cadeira para o umbuzeiro. “Ou aqui ou lá no umbuzeiro”, ele repetiu mentalmente. Sai arrastando o móvel antigo, pesado, singrando no terreno seco o peso dos anos de seu avô sentado ali. Chega no umbuzeiro, põe a cadeira lá, olha em cada galho, contorna o tronco e nada. Nada de Grigurinho por ali também.

João, já cansado, acaba sentando na cadeira, sentindo a textura gasta da madeira, o ritmo do balanço. Dá um sorriso pequeno e começa a inventar uma estória de som e de movimento de braços, e enquanto seus pés enraizam no chão e seus braços crescem folhados, observa o avô sentado no chão.

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22 comentários sobre “Arvorecer

  1. Sou um neto militante, apesar de não ser mais neto (meus avós já morreram). Isso é ponto que me pega de jeito. Além disso, se pudesse definir o texto numa palavra, esta seria “aconchegante”. Essas coisas de família também me balançam. E, creio, há uma pegada Manoel de Barros em uma outra expressão o que só faz escancarar este amor à primeira vista ao conto. Muito bom!

  2. Gostei do conto. As cenas da vida de João representam muito bem momentos da vida de muitos garotos de nossa região. Interessante a ingenuidade da criança perante um acontecimento tão definitivo com a morte. Parabéns!

  3. gostei. Lembrou-me rapidamente do filme ”A Árvore”, só que esse traz elementos como a morte e a árvore de uma maneira mais pesada, mas ainda assim mostra também a inocência (ou não) e intuição da criança com o acontecimento. Não vou falar muito sobre ele, pra não acabar surpresas, mas recomendo assistir.

  4. Meus sentimentos diante deste conto: Arrepio,sensação gostava de quando algo toca sua alma. Um tantinho triste, quando percebemos que as pessoas que amamos não são pra sempre, ou são?. E no desenrolar, um sorriso nascente do balançar daquela cadeira, fazendo com que eu revivesse meu tempo de pequenina.

  5. Excelente texto! Remeteu os meus tempos de guri e das travessuras na casa da roça do meu avô que hoje,mora na minha casa, e quando eu chego de viagem é um aconchego.

  6. Adorei Leo!me fez lembrar da minha infância amava(ainda amo)ficar descalça meu apelido continua a ser pe sujo,o conforto da casa de vó que saudade da minha menininha,de bicho esse personagem parece comigo

  7. Olha “primo”, esta leitura me fez viajar por caminhos que percorri e que meus filhos percorrem. Tudo isso concretiza ainda mais o valor dos avôs na vida das crianças. E em alguns momentos da leitura visualizava a sua imagem neste menino, não sei bem o motivo, mas tive essa sensação. Valeu, parabéns!

  8. Lindo conto. Em algumas passagens recordei minha infância na “roça, meu avô trabalhando e eu ainda pequenina sempre por perto a observar. Fiquei muito bem após essa leitura, continue assim Léo, de uma forma bem simples você conseguiu deixar meu dia mais brilhante. Amei…

  9. Pela terceira vez tento lê-lo em voz alta para alguém – faço questão de mostra-lo a todo mundo que gosto – e não consigo terminar a leitura sem antes dar pausa para que as lágrimas caiam alegremente pelo rosto. Gosto de sentir esse texto.

  10. *–*.. Muito encantador! Adoraria que tivesse uma sequência, quem sabe João possa embalar seus filhos na cadeira de balanço do avô.. ^^

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