Bondade

Ele era bom. Bestialmente bom. As pessoas diziam que isso era qualidade rara e ele, um ser humano incrível, daqueles que não se encontra fácil, numa mesa de bar qualquer.

Falava pouco, sorria menos ainda, mesmo assim não o julgavam infeliz. Tinha um emprego razoável, uma esposa descaradamente linda e não passavam apertos financeiros. Não era de festas, os amigos eram poucos, volta e meia aproveitavam de sua condição pedindo favores jamais recusados.

De sua família pouco se sabia, portas e janelas sempre cerradas. O pai, um rígido militar, socialmente admirado pela bravura e conduta impecável, morrera recentemente. A mãe, uma distraída! Vivia caindo da escada e, por isso mesmo, sempre cheia de hematomas. Curiosamente, após a morte do marido ela passou à prestar mais atenção por onde andava e não mais caiu.

Ele, filho único, bom aluno, bom amigo, bom marido, excelente funcionário. Dia desses acordou, encontrou a esposa o esperando para o café da manhã. Tomou um gole de café, conferiu os ovos: mexidos. Levantou-se calmamente, foi à cozinha, escolheu a melhor faca: dois golpes no pescoço, sem gritos, sem dor. Ela sabia que ele gostava de ovos moles, sem mexer. Não erraria mais. Tomou banho e foi trabalhar, ele era bom.

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9 comentários sobre “Bondade

  1. Isabela!!! Foram quatro parágrafos com a profundidade de um livro!!!! Nestes quatro parágrafos um bom psicólogo (que não é o meu caso) mergulha na história de vida e na psique do “Sr. Bondade”. Me permiti viajar no terceiro parágrafo e imaginar que a morte do rígido militar, genitor do Sr. Bondade, foi “caindo sem querer” da escada que sua esposa, distraidamente, vivia tropeçando sem querer. Uma delícia o seu conto!!!

  2. gostei mesmo. O remorso é um sentimento muito forte… precisamos aprender a lidar com ele.
    lembrou-me rapidamente um trecho de “O gato preto”, de Poe, que eu gosto muito. leia:

    “Certa noite, voltando para casa das minhas perambulações pela cidade, bêbado de cair, tive a sensação de que o gato evitava a minha presença. Agarrei-o e então, assustado com a minha violência, o animal produziu na minha mão, com os dentes, um leve ferimento. Em um segundo, fui invadido por uma fúria demoníaca. Já não me reconhecia. Era como se minha alma original tivesse sido arrancada de repente do corpo e uma maldade pior que infernal, alimentada pelo gim, permeasse cada fibra do meu ser. Tirei do bolso um canivete, abri, agarrei o bicho pelo pescoço e, deliberadamente, fiz seu olho saltar da órbita. (…)
    Com o passar do tempo, contudo, o gato sarou. É certo que a órbita vazia tinha um aspecto pavoroso, mas o animal não parecia sofrer mais nenhuma dor. Girava pela casa como sempre, porém, como era de se esperar, fugia apavorado assim que me via. Ainda me sobrava muito do antigo coração para que me sentisse, de início, pesaroso com aquela repulsa evidente por parte de uma criatura que tanto me amara. Logo, porém, tal sentimento foi substituído por uma viva irritação. E por fim, apossou-se de mim, para mergulhar-me de modo definitivo e irrevogável, no espírito da PERVERSIDADE. Desse espírito, a filosofia não trata. No entanto, estou certo de que minha alma vive, de que a perversidade é um dos impulsos mais primitivos do coração humano, uma das faculdades ou sentimentos primários não analisáveis que dirigem o caráter do Homem.
    (…) Era este insondável anélito da alma de torturar-se a si mesma, de violentar a sua própria natureza, de fazer o mal tão somente por amor do mal, que me instigava a continuar e, por fim, a consumar a violência perpetrada contra o inocente animal. Uma manhã, a sangue frio, passei-lhe um laço pelo pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore; enforquei-o com lágrimas a me brotar dos olhos e com o mais amargo remorso no coração; enforquei-o porque sabia que me tinha amado e porque sentia que nunca tinha me dado nenhum motivo de ofensa; enforquei-o porque sabia que fazendo isso cometia um pecado.”

    1. Fico feliz que tenha gostado, Artur. Ter trazido à lembrança o conto do Poe deixou-me deveras lisonjeada, o conto que postou é simples e extraordinário, obrigada!

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