Fome e vontade

Ela alisa um gato gordo, de pêlo claro, olhos semicerrados. Os olhos quebrados na janela surrada por uma chuva torrencial.

Ele descansa a cabeça sobre os braços gastos, que mal lembram a força de antes. Gosta do som da chuva esporrando a madeira.

Segura o gato pela pele da nuca e o suspende, enquanto levanta da cadeira de plástico. O gato não reage, ela o coloca de volta na cadeira. A cadeira é presente do ex. “Filho da puta”. Ele era muito espirituoso. Vai até a pia, abre a torneira. Fecha a torneira. Encara a janela. A chuva diminui. Abre a torneira e lava as mãos.

Agora com o queixo afundado num dos braços, ele passa os olhos vermelhos pelos papéis pregados nas paredes. E todos os outros espalhados na mesa de compensado ruim. Manchas de suor disputam espaço com a papelada. E uma xícara de chá esfriando.

Vai até o computador, põe um samba bom, coisa antiga, para tocar. Sai cantarolando para o quarto, sem a letra. Imagina como fazer pra tirá-lo de casa. Todos esses anos ignorando todo tipo de contato. Não pode ser normal. Mas precisa tirá-lo de lá. É o único jeito. Ajeita o sutiã no ponto mais folgado possível. É assim desde os 15. A cirurgia que o pai pobre negou trouxe a dor diária, que não a deixa esquecer. E trouxe os olhares compridos. De ambos desistiu de se livrar. Da dor, porque inventou um jeito bom de fazer passar. Dos olhares… Nos olhares ela tem um jeito a dar. Algum. Precisa tirá-lo de casa.

Rabisca um plano novo direto no compensado. “Esse é o melhor de todos”. Um riso rasgado, quase desespero, beira cair do rosto enrugado. Deixado ali por sete filhos, recebe felicitações anuais pelo aniversário, algum jantar no natal. E só. Rabisca com os olhos próximos à peça de madeira. Joga os papeis ao redor no chão, precisa de espaço. Dessa vez não falha. Desenha cada ação, cada virada de esquina. O tique adquirido ao longo dos anos não dá trégua: antes que o relógio na parede vire o próximo minuto, olha para trás por cima dos ombros. Começou dizendo que era para garantir que não tinha ninguém espiando, depois desistiu de explicar.

Faz um nó no cabelo numa passada de mão. Vai até a sala. Pega um caderno amarrotado, a capa já escura da mão sempre em cima. Anota alguma coisa. Pega uma maçã da fruteira, morde com preguiça. Vai tirá-lo de casa. Nem que seja a última coisa que faça.

Desce as escadas assobiando um samba antigo. Mal contém a felicidade. Não lembra a última vez que esteve assim. No casamento, talvez. Lembra dela. Balança a cabeça e joga a tristeza para o outro lado da cozinha. Segue o assobio, abre a geladeira, não encontra. A fruteira vazia. Franze a testa.

Bate a porta, mas volta. Tinha esquecido as sandálias. Riu-se. “Ainda saio nua”. Caminha distraída. Só espera umas ideias novas para tirá-lo de lá. Quem sabe não tropeça em alguma? Lança alguns olhares para uma roda de moços da faculdade. Se vê logo pelas barbas simultâneas: todas por fazer há uma semana. Se entendia. Segue caminho.

Põe o remédio no bolso da camisa de linho. O sapato macio para não apertar as dores dos pés. Vai ao banheiro. Confere-se. Passa o pente de sempre no pouco cabelo: uma vez para lá uma para cá. Pigarreia. Sai pisando firme em direção à saída. Mas antes da maçaneta, o portarretrato do casal: onde guarda o dinheiro das compras de cada semana. Sai, tranca a porta por fora – por um vidro que tirou para atender seus métodos – puxa a chave e segue para a quitanda.

Ela já faz o caminho de volta. Os olhos caídos denunciam a falta de novidade: não conseguiu pensar em nada. Sai pisando em cada poça d’água que vê pela frente, por preguiça de desviar o caminho. Segue cabisbaixa mais alguns metros, até que o desânimo é interrompido por um assobio surgido da esquina à sua frente. Ele caminha apressado para a quitanda. Ela aguarda ele passar pelo “beco da saudade”. Quando ele alcança o lugar ela o puxa pra lá, tapando sua boca.

– Mas o que é isso, menina? Quer me matar de susto?

– Não quero. Quero matar de vontade.

– Como é?

Antes que ele entenda, ela o traça num beijo esfolado. Apalpa suas carnes flácidas. Faz feitiços sobre seu pouco viço, sua rigidez esquecida. Ele tem os olhos quase correndo para fora das órbitas, mas não arrisca sair dali.

Ela aponta para fora do beco, faceira. Numa corrida quase infantil. Alcança o portão de casa. Entra.

Ele sai do beco tentando se refazer. Procura o remédio no chão. Refaz o penteado com uma das mãos. Uma conhecida passa e pergunta se está tudo bem. Ele balança que sim com a cabeça. Faz o caminho de volta para casa tentando descobrir o que aconteceu.

Ela sentada na mesa da cozinha, olhando no fim do caça-palavras o resultado da brincadeira. “Se não fosse pra olhar, não botasse”. Se diverte com as doses rasas de conhecimento.

Ele tranca a porta. Confere pelo vidro se há alguém do lado de fora. Tira os sapatos. Põe os pés no chão frio. Alívio. Sobe as escadas se amparando com os braços gastos na parede. Olha para trás sobre ombros, só de escutar o tique-taque do relógio de parede lá em cima. Senta no banco na frente do seu plano infalível. Olha para todos os outros espalhados no chão, pregados nas paredes. Precisa escolher as vítimas para tantos planos de vingança.

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3 comentários sobre “Fome e vontade

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