Diferente, mas amor

Montou e desmontou a arma. De novo e outra vez. Testou com os olhos fechados ou com apenas uma mão. Tentava se deliciar com a nova atividade, era a única forma de amenizar a outra tarefa que era maior, bem maior!

Ruminou as falas da discussão da noite anterior, e com estas alimentou o ódio que o estimulara a montar e desmontar a arma, resoluto. Ana dissera coisas horríveis, coisas que nunca esperou ouvir da sua esposa que muitas vezes dissera que o amava mais que a si própria. Perguntou-se o que era amor, e se poderia amar de forma diferente ou sempre teria que ser aquela coisa de troca, de encaixe e de carinho entre homem e mulher. Concluiu que nunca amou Ana.

Olhou para o relógio na parede, não acendeu um cigarro, não tomou um trago da bebida, apesar de ter visto em vídeos de faroeste que era assim o ritual. Não importava meios. O começo já fora executado, o fim não tinha alternativas, meios apenas não interessavam. Colocou o revólver, com duas balas alternadas no tambor, preso à bermuda nas costas. Tinha a boca amarga, o olho vermelho e uma face bem gravada na memória.

Subiu a ladeira, passo firme e determinado, apesar de pesado num ritmo constante. Segurou a campainha, repetidamente, impaciente e pela primeira vez pensou em desistir, aqueles malditos segundos para abrir a porta o estavam fazendo vacilar.

Porta e sorriso abertos ao ver quem era o visitante.

– Eu te odeio.

Proferiu antes do bom dia e do beijo de reencontro. O coração de André palpitou ao ouvir aquela frase.

– Mas você disse que me amava várias vezes…

Disse num tom de súplica, vacilante.

– Disse, mas mudei de opinião.

Jorge tentou manter a voz firme sem perceber que falou quase aos gritos e sofria, estava diante do amor da sua vida e teria que matá-lo. O barulho fez algumas pessoas na rua prestarem atenção nos dois.

– Entre, não vamos discutir no meio da rua.

Sentenciou André, após observar que curiosos já se acumulavam, esquecendo-se dos seus tediosos afazeres de todos os dias, afinal saber da vida dos outros sempre torna nossa vida menos tediosa.

Entraram batendo a porta, André estava nervoso. Ninguém substituía o amor tão rápido assim, na sua cabeça passava um turbilhão de imagens, todas rememorando a vida escondida e bela que passaram juntos.

Disparou, por sorte ou azar era o tiro oco da roleta-russa.

– Por que você fez isso? Quer me matar de susto?

Gemidos e soluços entrecortando a fala de André.

– Ana descobriu nosso caso, me perdoe, mas saiba que não tive outra opção.

Jorge desistira de matar o amante, optou por encaixar o cano do revólver na própria têmpora e atirou, dessa vez sendo contemplado pela roleta-russa que armara ao colocar somente duas balas no tambor. Caiu morto em cima do André, que chorava silencioso, manchando as mãos de vermelho ao alisar a barba de Jorge úmida de sangue.

Isso ocorreu há muito tempo. Tempo onde amor, diferente do tradicional homem e mulher, tinha que ser escondido, era motivo de vergonha e gerava ódio contra os que amavam diferente. Tempo em que amar diferente  tinha que ser camuflado por algo que se passava por amor. Hoje os tempos são outros.

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8 comentários sobre “Diferente, mas amor

  1. O mais gostoso do amor é poder apontar ao mundo o meliante responsável pelos sorrisos perdidos no nosso rosto, nos momentos mais inesperados… ahhh o amor… acho que lembro vagamente como ele é! rs

  2. Muito massa Gren.
    Mas eu não diria que essa história de amor é diferente. Ela é igual a muitas e muitas que existem mundo afora, das favelas às mansões, dos prostíbulos às universidades, dos homo aos heteros passando pelos bi, trans e assexuais…

  3. Morrer por amor, romântico pra quem? O amor faz muitos perderem a razão, e será que era mesmo amor? ou medo do amor? Amar é não ter medo de viver a liberdade de sentir o que só o amor tem a oferecer, uma raridade amar e na oportunidade se lambuzar outro momento quiçá não o terá .

    Bjins, Grê!!!

  4. Ooooooooooooown
    Que triste.
    Suas histórias são otimas, me fazem passar do riso, à apreensão, à tristeza e de volta ao riso.
    Quero um livro completo Grên! 😀

  5. Não posso deixar de concordar com os comentários acima sobre mistos de emoções..meu coração é muito sensível ao fascinante e encantador Amor…lindo conto!

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