Delírio

-A febre baixou?

– Baixou, mas subiu de novo.

-Não sei o que tem com essa menina, nunca foi de adoecer assim.

– Põe umas toalhas de água fria e espera, se não funcionar, levamos ao posto.

– Quem vê assim dormindo nem diz que ta doente. Olha! O anjinho até sorri.

Grossas cobertas de lã escondiam as curvas nascentes, 13 anos completados na última semana. Na cabeceira a boneca que a tia mandara de Londres ainda estava na caixa, não teve interesse em tirá-la dali, quando soube que a parente que tanto e tão inexplicavelmente amava e admirava havia se lembrado de seu aniversário e lhe enviara um presente da curiosa e sonhada Europa, teve o ímpeto de sair pulando e gritando a felicidade que fervia em seu coração, só não fez por pudor de adolescente recente cheia de tabus e medos sociais. Abriu o pacote com devoto cuidado, não queria estragar nem perder nada daquele precioso embrulho, mas o prazer foi desfeito ao revelar o conteúdo: uma boneca. Vestidinho xadrez, cabelos loiros que a mãe disse ser de gente de verdade com o ar mais maravilhado que tinha e que a deixou enojada, pele de branca louça, bochechas rosadas, olhos de vidrinho azul, um amor. Ela sorriu, ligou para tia para agradecer, claro que tinha amado, não precisava ter se incomodado, sim estava indo bem no colégio, a tia demorava a vir? Agradeceu mais uma vez, precisava desligar, ligação internacional custava caro, pôs a boneca na cabeceira e de lá não tirou mais. Dormiu pensando na tia e nas aventuras que ela possivelmente vivia no frio continente, havia escutado atrás de portas murmúrios maldosos sobre o ofício da bela e misteriosa mulher, nem assim seu fascínio diminuiu. No meio da madrugada sonhou que era a tia, envolvida em peles, jóias e homens, o cheiro do perfume pareceu presente no quarto, mãos masculinas desejosas de seu corpo percorrendo suas coxas, o calor das pernas invadiu-lhe inteira, sua pele queimava em verdadeira febre. Amanheceu e ela não levantou para o café, ainda gozava nos braços dos homens do Velho Mundo, sua mãe estranhando sua ausência foi conferir o que havia acontecido, encontrou-a febril e desde então cuidava da enferma. Um gemido abafado interrompeu a contemplação.

-Pobrezinha… Como deve estar sofrendo.

Uma gota de suor escorreu de sua testa, sangue novo entre suas pernas anunciou o fim da infância, um espasmo e um sorriso, em seu transe de enferma se preparava para mais uma rodada, ela e a tia, agora uma só.

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