Ira e trovões

Na segunda iria até lá e seria duro com eles. Não toleraria mais esse tipo de sabotagem. Ele repetia mentalmente enquanto as mãos, cerradas, ora amassavam planos infalíveis ora ninavam a ira que erodia os olhos fundos de certeza e insônia.

Uma mulher que ele não conhecia batia à porta do quarto, várias vezes ao dia, e entregava as refeições. Insossas, pastosas, num prato de plástico igualmente dispensável.

Também isso não estava mais disposto a permitir. Ou a situação se resolvia ou ele tomaria o rumo de casa. De onde eu nunca deveria ter saído, vez ou outra saltava da boca rumo aos cantos vazios do imóvel escuro.

Decidiu que não passaria daquela tarde a resolução. Pôs a mala de couro esquecido em cima da cama, alisou as cicatrizes das viagens de antes, empurrou lá todas as camisetas brancas, todas as calças pretas, todos os sapatos quase espelhos de brilho. Ele parou alguns segundos se olhando no reflexo dos calçadores de fuga, se viu, enxergou a opacidade em seus olhos, a sujeira nas vistas. Invejou o brilho do objeto que vivia rastejando na sua função primeira.

Fechou e abriu a mala três vezes. Esqueceu de acender a luz. Entrou no chuveiro com a roupa de duas semanas manchando o corpo. O corpo e o ralo. No ralo não escorria só a água turva. O olhar dele seguia a trilha da água, girando e mergulhando canos abaixo. Esgoto adentro.

Enxugou o rosto com a calça que vestiria. Vestiu a camisa por dentro da cintura vazia. Foi até a janela. Esquecera a mala dentro do armário. Via o céu acizentar-se impiedoso, esbravejante, como todas as vezes em que decidira ir embora. Trovejou:

– Canalhas! Fascínoras!

E arremessou o armário no chão, o baú pôs na privada com cuidados milimétricos, a mala pendurou no lustre amarelado. Até que a mulher chega correndo, invadindo sem bater. Ele levanta a mão bem no alto em ameaça. Corre pro colo da senhora, e cai no choro.

– Ah, João…

– São as minhas vermes, minha mãe… São elas.

– Não é verme, meu filho.

– Perdoa, mãe… Eu não quero mais.

– É só uma febre. É só uma febre. Já passa.

João aninhado no colo da mãe, mãos cerradas escondendo a vergonha entre os joelhos. Os olhos da mãe pesarosos no quarto queimado de febre.

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12 comentários sobre “Ira e trovões

  1. Leo é inspirador. Em cinco semanas de Bordel, percebi com o Leo que preciso tratar bem as palavras e delas, tirar a forma mais harmoniosa de escrever.

    Como sempre, um texto fascinante! Parabéns e que eu possa aprender muito mais com você!

  2. “Foi na insanidade das loucuras. Meus devaneios viram as palavras trocadas” Muito bom o texto. E como disse Grênivel Costa: Léo é um inspirador. hsaushausha

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