O médico estrangeiro e as febres

Mal chegara em casa, arrastando o filho doente que se arrastava, a vizinha correu ao seu encontro, mais para saber como era ir em médico e o que ele dissera, do que por preocupação com a febre do filho da outra.

Naquele canto do Brasil tinha profissionais de saúde: benzedeira, parteira e enfermeira, mas era a primeira vez que os moradores daquele fim de mundo tinham um médico com diploma emoldurado num quadro pregado na parede. O prefeito que o levou, foi buscar na capital e o trouxera até ali, alguns engraçadinhos faziam piada dizendo que sozinho, dificilmente o doutor acertaria o caminho daquela cidade. O dia foi de festa, foguetes, fanfarra e discursos cheios de palavras bonitas, que as pessoas aplaudiam mais por convenção que por entendimento. E o que se sabe é que desde então, todos pediam a Deus um motivo para visitar o médico e saber como era uma consulta com aquele aparelho engraçado que ficava enterrado no ouvido, tamanha era a novidade no lugar.

A outra mulher tentava lembrar o que aquele doutor da fala embolada a recomendou. Das muitas coisas ela só entendera que era para dar um banho gelado toda vez que a febre ficasse muito alta. Tentava recordar, mas não conseguiu. Na verdade ela ficou prestando atenção em como aquele sujeito era relativamente bonito com aquela roupa branca como nuvens, contrastando com o escuro da cabeleira e dos olhos.

No consultório, por alguns instantes até esquecera a febre do filho para pensar na sua febre de mulher que não sabia o que era homem desde que o marido descera para Palmas para ganhar a vida e nunca mais retornara ou mandara notícias e dinheiro. Sua quentura ela sufocava por medo do falatório da vizinhança e com o passar dos anos, essa febre ficou guardada, mas a novidade daquele senhor, aproximadamente da sua idade, que tinha o dom da cura, despertara o desejo guardado, num fogo que saia de suas ancas e se confundia com a temperatura febril do filho e o mormaço do ambiente.

– E tu vai dar banho gelado no menino? Ele vive tremendo de frio da febre e tomar banho gelado? Questionou a vizinha, tirando-a do transe.
– É, né? Vou não. Amanhã vou lá de novo e peço comprimidos e quem sabe uma receita num papel carimbado com o nome dele. Imagina a cara do Tonho da Farmácia quando chegar com aquele papel cheio das letras garranchadas.
– Que sorte de ter um menino febril para ir fazer a consulta no doutor. A ponta de inveja corroendo a frase, rosto, coração e corpo todo.

Antes mesmo da vizinha sair, colocou no fogo mais uma porção de erva-cidreira, limão, sabugueiro e alho para ferver e tentar curar o filho. Já se passara seis dias e nada da febre ceder. E aqueles chazinhos aprendidos com a mãe, que aprendeu com a avó, numa linha do tempo que ninguém se aventura a descobrir onde surgiu, não estavam resolvendo muita coisa.

– Menino, toma.
– Ah mãe, quero não, esse chá tem gosto de barata. Falou em tom de choro, dengo inerente aos doentes do sexo masculino.
– E você já comeu barata? Para de reclamar e toma logo que não aguento mais ficar sem dormir por causa dos teus ais a noite.

Não parou de pensar no médico, na língua e na fala embolada, achava que ele num ia servir de muita coisa na cidade, afinal, quem ia saber o que ele falava? Mas pensou na sua língua, braços e todo o corpo embolado no dele. Ela também estava febril, seu corpo queimava de tesão e adormeceu pensando em como levá-lo para sua cama.

Acordou bem cedo na intenção de levar o filho febril ao doutor. Rumou ao quarto da criança e não a encontrou. Correu pra rua, o coração na boca, desesperada. Encontrou seu filho, correndo atrás da bola com outros moleques com a cara de quem nunca esteve doente.

Sorriu aliviada. Iria levar ao médico um pedaço de canjica, temperada com segundas intenções para agradecer. E assim o fez. Preparou a vasilha e seguiu para a casa do médico. Assombrou-se ao ver quase todo povoado formando uma fila enorme, forçando cara de dor, numa algazarra infernal na porta do médico. Inventou uma dor e tomou seu lugar no fim da fila.

Anúncios

14 comentários sobre “O médico estrangeiro e as febres

  1. No sol uma nuvem se atirou, ela se esfaleceu… o povo gritou: chama o dotô.
    Muito legal o conto, com narrativa direta em pitadas de poesia…
    Eh engraçado sabermos que médicos ainda exercem esse fascínio quase alienígina em cidades do interior.

    parabéns ao autor ^^

  2. kkkkkkkkkkk, concordo!! A figura do médico desperta interesses ainda hoje…adorei a crítica embutida na história… E me lembrei de umas amigas solteiras que diziam que bom partido pra casar é médico: ¨ Cansei….Agora eu quero um CREMEB¨ Elas diziam nos momentos de clube da lulizinha….

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s