Voo

Um pouco de sol entrava pela janela iluminando timidamente a sala. Já era tarde, mas naquele lugar o dia nunca amanhecera por completo. O velho ventilador de teto debilmente oscilava empoeirando mais do que amenizando o calor. Ele não se levantou. Quieto, observava o que acontecia na sala. Não lhe davam importância. Na verdade, havia algum tempo que sequer notavam sua presença. Vez ou outra, pequenos ofícios de asseio faziam com que fosse lembrado. De seu canto, estudava os passantes, era grande entendedor das coisas dos homens. Na sua mudez, presenciara conflitos com e sem relevância, vira alguns romances, todos verdadeiros, poucos sinceros, crianças cresceram, velhos não vieram mais e jamais tornariam a vir. O tempo passava para todos. Até para ele que, apesar das poucas mudanças, não era isento dos caprichos do correr dos dias. Mas não importava o envelhecer. Não fora sempre assim. Em outros tempos, era o centro das atenções, havia pessoas que chegavam ao cartório de notas unicamente para admirá-lo, mas a crueldade dos anos o tornou desinteressante, o mundo mudou e as “gentes” prestavam cada vez menos atenção naquilo que não lhes gritava exigindo importância. Que razão havia em sua presença? Correntes ou gaiola não o aprisionavam, mas, tristemente, não podia escapar. Sua prisão era a matéria do que fora feito e como para nós a morte é destino certeiro, para ele aquele canto era sua condenação e morada. Dorian Gray tinha razão, beleza e juventude eterna fazem da alma mercadoria barata, importava o envelhecer. O dia se passou, repetidamente tolo, o apagar das luzes não conseguia tornar mais sombrio o lugar, na verdade dava certa alegria ao ambiente, pois, com a escuridão tomando conta, as manchas de mofo e as muitas rachaduras das insistentes infiltrações desapareciam. Alguns grilos cricrilavam saltitantes da certeza de não serem pisados. Ele, quieto no seu canto, olhos de falso jade a observar. Silêncio estranhamente cortado, alguém chegou interrompendo a liberdade dos insetos, a pressa e a familiaridade do caminho fez desnecessário o acender das luzes. Vinham em sua direção. Um braço passou por sua cabeça, um toque macio o empurrou para um inesperado voo. Cortou o vento gelado que entrava pela porta. Liberdade. Aquele momento audaz o condenou, não existiria nada como aquele único e tão esperado voo. Frações de segundos depois, tocou o chão se desfazendo em incontáveis pedaços.

– Droga!

– Que houve?

– Aquele pássaro de vidro cafona, que seu pai insistia em manter aqui, caiu quando peguei o casaco.

– Meu avô trouxe da Itália. Segundo ele, era obra finíssima do rococó, ou outro movimento qualquer.

– Rococó? Que nome engraçado.

– Você se cortou?

– Não. Mas não acha que seu pai vai encrencar?

– O velho? Que nada! Sequer deve se lembrar dessa coisa. Só pilhava quando falávamos em tirar, de birra. O passar do tempo traz apegos desnecessários.

– Então sem problemas?

– Claro, meu bem. Mas vamos que o filme começa às dez.

No outro dia, quando chegasse ao cartório, a zeladora, entre resmungos e xingamentos silenciosos, recolheria os cacos e os fecharia num saco, o lixeiro passa irremediavelmente às oito.

Anúncios

4 comentários sobre “Voo

  1. Esperei muitas coisas, não passei nem perto na minha esperança. Iza, parabéns, você broca, essas coisas não definem a cara que fiz ao ler esse texto!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s