O último beijo dos pássaros

A grande área verde esconde a casa atrás de uma árvore centenária. Quase não a veem. Os banhos, cada vez mais esporádicos, ligeiros. O sol não a alcança porque a árvore, povoada, cresce muito acima do telhado, encolhendo a casa e ela.

Dia sim outro não, algum deles testa a sua dureza, sua piedade. Ela não sai dali.

É de lá que se pode ver a árvore que pendurou no balanço os sonhos de todas as meninas. Que derrubou as coragens de todos os meninos da família. É de lá que se pode ver a árvore de folhas que morrem cobrindo o passado de terra escura, escondendo as vergonhas dos bisavós sovinas, dos tataravós de chicote sempre à mão. É de lá que se pode ver a árvore de galhos que sentiram o peso das dores dos avós quase bons. Ela não sai dali.

Nem no dia em que chegam homens quadrados armados com serra, braços, rostos dispostos, e a máquina cortadora de árvores. Dentro da máquina, um homem bem pequeno à espera da ordem. Ele não tem no rosto o sorriso dos homens quadrados. A expressão é calma, fria, algo infantil. Ele rói as unhas e cospe ao lado dos pés. Os dedos de uma mão acabam, ele parte para a outra. E ela vê tudo lá do alto. Copos plásticos no chão, uma agitação crescente, até que vem a ordem. Ela não sai dali.

– Corta!

O pequeno homem dentro da máquina de cortar passado, de amarrar saudade, retesa o olhar na árvore. Sua função ali é só manejar algumas alavancas com suas mãos carcomidas. Logo se escuta o bater de asas, o canto de fuga, o aviso de adeus. Os homens quadrados festejam suas serras e seus braços num abraço de morte. E a casa, que se escondia na árvore, aparece. Opaca, pálida. E ela não sai dali.

Do segundo andar onde sempre se escondeu todas as ameaças de monstros inomináveis. Do segundo andar que desvirginou muitas ansiedades de roupas no chão, mãos espalmadas na cama, suores deitados. Do segundo andar que foi muitas vezes a prisão e o rito de passagem para o novo ciclo das crianças que já não eram.

Não demorou. Foi depois que a árvore deixou de ser e virou armadilha de tropeçar. Os primeiros chegaram. Fizeram mil ameaças. Mas ela não sairia dali. Então, um a um, eles batiam nela até cair. Era um som surdo. Tum. Foram pintando ela de vermelho. Um vermelho vivo. Um vermelho que escorria sem que ninguém visse. E o som surdo. Tum. Um a um eles foram acabando. Acabando. Até o último se amontoar junto aos outros, aos pés dela: a janela vermelha de sangue. No próximo verão, e em todos os seguintes, o único som que se ouvirá será o choro do vento.

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17 comentários sobre “O último beijo dos pássaros

  1. O deixar de existir da árvore, representa uma ruptura, um vez que ela, no texto, e nas memórias de muitos homens feitos, representa um elo, uma ligação com o passado. Quantas árvores já não foram testemunhas oculares do cotidiano de gerações?

  2. Ainda bem que a localização daquela câmera escondida que gravava 24h não registrou um menino com uma capanga cheia de pedras e com um badogue no pescoço que saia pra caçar.
    Saboreei o texto Léo !

  3. É um texto digno de um grande escritor, por trás de destas belas palavras existe uma alma linda e cheia de enfeites. São enfeites necessários para continuar e continuar…LINDO … LINDO. Emocionante, emoções que afloram quando esta janela ensaguentada já fez parte um dia dos nossos dias, nossas horas e minutos.
    E isso meu caro escritor é a – Transformação.

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