O pássaro

Os olhinhos de João brilhavam e marejavam ao ver o voo. Voo de máquina não, o barulho dos aviões e helicópteros roubava a beleza silenciosa de voar e ele, no alto dos seus cinco anos, vivia sua fantasia aérea, quase mágica, onde havia o céu, o verde das árvores e os adultos ao seu redor não  conseguiam alcançar.

Das inúmeras grandes ideias que povoavam a cabeça de João, a maior delas era o desejo de voar igual aos pássaros. No seu quarto, seu universo paralelo, Joaozinho se escorava numa cadeira e ficava com os olhos no beiral da janela, olhando esses animais numa dança interminável, belos mergulhos, subidas vertiginosas e piruetas circenses, num vai e vem eterno. E sempre terminava por se ver como um pássaro, penas azuis, sua cor favorita, num riso estranho que misturava o bico com os seus dentes.

– Mamãe, como faço pra voar?

– É só entrar no avião, disse a mãe, meio impaciente, mas da forma que entendera a pergunta, afinal a cabeça de um adulto não enxerga que a criança cria asas e voa pra longe de todo o mal, de todo o bem, de todo o meio.

Mas João não gostava de barulho de avião, nem da forma que voava reto. Viraria um pássaro e brincaria no ar, para isso precisaria apenas de todas as penas que conseguisse juntar. A tarefa parecia fácil, mas quinze dias depois, as penas não enchiam sequer a caixinha em que viera o foguete que ganhou da avó. Chorou incessantemente.

Sem o corpo coberto de penas seu sonho chegaria ao fim. Até que um dia, estourou os travesseiros de sua casa como tinha visto na televisão, eles eram cheios de penas. O pequeno João parecia que tinha encontrado o tesouro no final do arco-íris, deu pulos de felicidade e correu antes que fosse colocado de castigo pela travessura que fez. Nem se importou que as plumas fossem brancas e não azuis, iria virar passarinho. Entrou no quarto, passou cola por todo o corpo e jogou todas as penas em cima, colocou uma cadeira ao lado da janela e com muito esforço a abriu: mergulhou, batendo os braços que agora eram asas!

Voou alto, misteriosamente suas plumas eram azuis. Virou-se e viu sua mãe na janela e não entendia porque ela chorava triste, abraçada ao pai, com uma expressão de dor que ele nunca tinha visto a mãe sentir. Quis voltar, mas não conseguiu e não sofreu por isso, ele era pássaro, voar era melhor que os abraços e beijos. A saudade existiria, mas teria o vento, o céu e o infinito pra esquecer.

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11 comentários sobre “O pássaro

  1. Lembrei das minhas leituras da infância, em especial do livro “O menino de asas”, de Homero Homem (Coleção Vaga-Lume). Muito bom!!!

  2. Olhando a vida com os olhinhos de João, adoraria voar..mas me sentiria pesarosa ao olhar novamente e ver que tristes sentem por mim! Lindo e profundo!
    Parabéns..

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