Sincretismo

À Melka, toda a inspiração.

O vento soprava forte levantando as saias das meninas que seguiam atrasadas para a missa, não ia chover, raios e relâmpagos cortando o céu: “ Eparrê, Oyá!”
A deusa se fazia presente, a noite clareada por sua saudação no céu cheio de estrelas. Mês de março e ainda não chovera, restava fazer novena pra São José, pai adotivo de Jesus menino, homem bom que, como todos os homens bons do santo livro cristão, recebeu presente e condenação no mesmo pacote: ser marido da casta Maria, que por ter o leito vazio de homem, abrigava a humanidade e seus lamentos no seu sofrido coração ferido de mãe que viu o filho morrer. Oposto seu era Iansã que agora reclamava seu posto na noite de tempestade sem chuva. A pagã africana seduzira a quase todos os orixás, leito sempre cheio aprendendo do amor, da ciência, da arte e da guerra. Coração contraditoriamente vazio comparado a tanta fartura nupcial, nele cabia apenas Xangô, a quem tentando seduzir, deixou-se enfeitiçar e a ele não soube deixar no mais alto da paixão, como aos antecessores fizera. Amor também é saber deixar. A recusa da bela Oyá em deixar o amado rei fez nascer sentimento naquele tempo desconhecido: o ciúme, o traiçoeiro sentir que ela governa na cabeça dos mortais, sendo ela mesma a maior possuidora.

Seguia sozinha para a igreja. Sozinha e impetuosa, cortando o vento com o empinar do nariz mestiço. Amava o virar do tempo, odiava andar com as outras moças. Não era a mais bela, na verdade era de uma beleza comum, mas tinha algo nos lábios querentes, nas curvas fartas, uma ousadia que gritava em seu sangue a lembrar-lhe a raiz natal, um brilho que só era verdadeiramente seu quando estava sozinha, sabia disso. A missa havia começado, acomodou-se ao fundo.
-Boa noite, Bárbara. Sua mãe não vem?

-Boa noite, dona Luiza, mãe ficou ajudando a montar as barracas para a quermesse de depois da missa.

-Chegou atrasada hoje, não deve comungar.

-Sei disso, mãe me alertou. Não pude vir mais cedo, tava ajudando com as comidas.

-Ahhh, entendi. Mas vamos prestar atenção à missa, padre Antônio daqui a pouco reclama de nossa falação.

Padre Antônio fazia o sermão, inconfundível o sotaque português e Bárbara, que tinha esse nome em razão de ter nascido no mesmo dia da santa, era toda olhos e pensamentos de confessionário:  A boca de padre Antônio. De lá só saiam palavras belas, ritmadas pela calma e no respirar da pausa ao dizer, suspiros femininos materializavam-se. A missa chegara ao fim, algumas carolas insistentes reforçavam as orações cantando repetidas vezes a ladainha. São José haveria de escutar.

Padre Antônio despira a batina ficando apenas em vestes mundanas para ir a quermesse, Bárbara com seus grandes olhos de fogo castanho curioso, estava atenta aos seus passos, noite de poesia e música, ele iria recitar. Aqueles poemas de amor que ele trouxera da fria Europa, aquilo sim era sua comunhão, ansiava com todas as suas tripas comungando com a escorrência do amor nos átrios do corpo poeta, boca boa de falar, boca boa de beijar. Seu Xangô. Por ele arriscara entrar em reino desconhecido, por ele recusara os antes tão frequentes rapazes de sua idade, a imagem dele adoecera em seu peito e a castigara de mal de amor. O perseguiu, o cercou, fez ele enredar-se em sua pronta teia, deusa menina deu o bote, ele deixou-se envenenar mas vaidoso, o orixá rei não engoliu a peçonha, tinha domínio sobre ela, tinha domínio absoluto de si e isso era o que a irritava, ele poder se governar. Ao terminar o recital dirigiu-se a ele e pediu a bênção.

–Mais tarde posso te ver? – sussurou enquanto ele fazia o sinal da cruz em sua testa.

-Talvez. Quero ver a apresentação do batuque.

Os músicos se ajeitavam no estreito palco.

A lua ressurgira em meio aos insistentes trovões: São Jorge percebera o feitiço da noite, vestiu-se de Oxossi e veio espiar. A festa começou, ao som dos tambores surgiu um bumba-meu -boi que rodava e dançava entre o povo, abrindo a roda, convidando as meninas mulheres de fingida timidez a se soltarem.  O toque  do tambor, o balançar do boi, a presença dele ali tão perto, tão sacro o cheiro de suor e incenso, tão distante e tão seu, fez com que a menina entrasse em transe, pouco a pouco Bárbara e  seu santo nome ia deixando o seu corpo, uma moleza, os olhos semicerrados, sentiu que ia cair, Oyá aparou. A deusa chegara, invadiu o corpo da menina e tomou-a como cavalo, não havia mais Bárbara, não havia mais santa, era Iansã invadindo a roda, a mulher mais poderosa da África negra, a mãe dos nove orum, dos nove filhos do rio de nove braços, a mãe do nove, Ìyá Mésàn, comunhão de água e fogo. Devastação vulcânica pôs-se a dançar, seu inconfundível perfume de rosas cresceu em meio ao povo, aqueceu aquela roda atônita, as meninas até então paradas, viram na quebrancia desavergonhada e sedutora convite para se soltarem. Logo, todas como que também possuídas estavam na roda requebros e risos tomaram conta do lugar, era o fogo da Orixá se espalhando. O fogo das paixões, o fogo da alegria, o fogo que queima e deixa-se queimar. Os olhos dele a segui-la eram quase denunciadores de si, estava perdendo o controle, amava aquela menina, não tinha jeito, por mais que relutasse devido ao santo ofício de pastor daquele rebanho, hoje deixar-se-ia cair entre os seios profanos  da bela moça, hoje ele perdeu o posto de governante. Mais tarde lábios e língua entenderiam o sincrético mundo dos deuses baianos.

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10 comentários sobre “Sincretismo

    1. Obrigada, caro Leo, sua opinião é ouro! Fiquei boba com o elogio, vamos ao próximo, escrever sobre pardal é complicado!

    1. Não entendi o “acredito que só Iza poderia ter escrito mesmo”, rsrs. Você roubou no seu joguinho de adivinhação, não vale! 😛

  1. Massa a ambientação. Gostei da forma como você trabalha o tempo. Sem dizer que a ironia do “sincretismo” é muito legal!

  2. Só digo um negócio: Eparrey!!! Jorge Amado deve estar feliz lá no Orun, vendo que aqui no Ayê existem pessoas como você que continuam a escrever maravilhosamente sobre essa Bahia mágica tão bem quanto ele escrevia! 😀

  3. Izabela, entendo agora a energia que criou a lenda da mula-sem-cabeça! Maravilhoso! Além de envolvente e muito bem escrito, traz informações bacanas sobre os orixás! Parabéns!

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