Amor, suor e lágrimas

– Eu, investido pela vossa vontade comum, na comunhão do amor, vos declaro casados.

Com os olhos cerrados, o casal dá um beijo contido. As mãos enlaçam-se em finalmente. Os dois se viram para os presentes, e seguem, risos banhados por lágrimas, em direção à saída da igreja. As pessoas atrás aplaudindo e dando gritos de alegria e bom futuro.

Jean pega seu material de trabalho, caminha para a saleta por um corredor estreito. Entra e fecha a porta. Despe-se das vestes do ritual, caminha para o banheiro mal iluminado, senta-se no vaso e pôe a mão para sustentar o queixo. As olheiras profundas, escuras, denunciam a rotina exaustiva de todos os dias. Levanta-se, dá descarga, e entra para o box do banheiro pintado de infiltrações. Enquanto esfrega o corpo com uma esponja gasta, gasta sua energia pensando na mãe. Em como queria estar mais perto, em como queria que ela estivesse ali, nesses dias de tanto trabalho e pouca comida. Liga pra ela mais tarde, a saudade pode trancar sua voz dentro do peito, e alguma cerimônia teria que ser adiada. Veste o jeans surrado, a camisa branca, percatas velhas de couro, desliga as luzes do salão e sai. Não antes de trancar e destrancar a porta três vezes. Três.

Ao chegar no mercado, vê a fila que desaparece atrás das prateleiras da última sessão. “Ainda morro de fome”, pensou ele antes de desistir, pela terceira vez, de abastecer sua dispensa empoeirada. Enquanto sai, o celular toca. É Helena, seu ex-amor mal resolvido.

– Oi, Leninha.

– Não. Vim no mercado, mas a fila me desanimou.

– Claro.

– Tá.

– Onde é mesmo?

Jean sorri.

– Já chego.

– Outro.

Vira à esquerda no cruzamento e apressa o passo. Um motoqueiro vem fazendo sua moto gritar de longe. “Deus te leve” Jean pensa, preocupado. Sobe a rua com o passo ligeiro, ofegando de leve. A testa sua em bicas. Avista Helena na mesa do bar. Faz um aceno, uma careta. Olha para os lados, atravessa a rua. Helena não esconde sua alegria: um beijo no rosto, um abraço longo. Ela veste vermelho, a cor que Jean sempre disse que era a cor dos desejos dela. De todos eles. Ela bebe uma cerveja. Vai encher um copo para Jean, mas ele recusa com a mão.

Helena: Você nunca atendeu um pedido meu tão rápido.

Jean: Deve ser culpa.

H: Pelo quê?

J: Porque tenho outra cerimônia daqui uns minutinhos.

H: Deus do céu… Tu vai adoecer desse jeito.

J: Você não deixaria.

Helena ri, e quando vai responder o celular de Jean toca. Ele responde a Helena já com o telefone no ouvido.

Jean: Nem você nem a dona Elisa. Oi, mãezinha.

J: Tudo. A senhora tava adivinhando. Ia te ligar hoje.

J: Juro!

J: É um convite irrecusável.

J: Se não for assim a senhora não vem.

J: É. Nem mercado eu tô conseguindo fazer.

J: Amanhã? Já?

J: Pai não vai ficar chateado?

Jean gargalha. Helena não tira os olhos de Jean, um sorriso bobo estampado numa expressão já quase ébria, os olhos miúdos.

Jean: Tá certa você. Tô te esperando então.

J: Até.

J: Beijo.

J: Tchau.

Helena: Dona Elisa não te deixa crescer mesmo…

J: Dessa eu vez eu tô é pedindo socorro, a culpa é toda minha.

Jean estica o pescoço à procura do garçom.

Jean: Que sede…

Helena: Pede um suco. Tem um monte aqui.

Helena abre o cardápio para procurar a seção de bebidas, mas Jean olha o relógio pendurado na parede descascada do bar e se sobressalta.

Jean: Vixe, Leninha… Vou ter que correr. Ou isso ou me põem na cruz.

Helena: Mas já? Vê se pelo menos me atende quando eu ligar, viu? Não mordo.

J: Morde, e o pior: depois assopra.

Helena fica sem resposta, a não ser o mesmo sorriso bobo estampado no rosto de menina. Jean se levanta e lhe dá um abraço. Ele vai se afastar, ela o aperta mais um pouco.

Jean: Da próxima quem vai te ligar sou eu.

Ele fala enquanto se afasta.

Helena: Quero estar viva pra receber essa ligação.

Jean acena já de costas, atravessa a rua correndo. Uma lágrima escorre no rosto de Helena. Ela engole seco, e empurra a dor abaixo com um gole da cerveja. Jean faz o caminho de volta ainda mais apressado que antes. Chega à entrada lateral do salão, seu auxiliar o aguarda. Trocam duas palavras de pressa e gentileza. Jean passa a toalha ainda molhada do banho no rosto e põe de volta suas vestes rituais. Faz a cerimônia com a paz de sempre. Sua voz tranquila emociona os presentes. Conduz tudo até abençoar os noivos da vez.

– Eu, investido pela vossa vontade comum, na comunhão do amor, vos declaro casados.

Marco e Jair dão um beijo apressado, nervoso, atrapalhados. Fazem o caminho até a saída, seguidos pelo cortejo que aplaude e dá gritos de alegria e bom futuro.

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