Primeiro sacrilégio

– É sacrilégio.

– Eu sabia que você ia dizer isso, mas não temos outra opção, você sugere algo melhor?

– Não, mas é pecado.

– Você ainda acredita em pecado? Ele não conseguiu disfarçar o riso, mas abafou a gargalhada, pois a magoaria e definitivamente não estava com vontade de perder tempo para tentar se desculpar.

– Não, mas sei lá…

Percebeu que algumas coisas aprendidas na infância, mesmo depois de caídas em descrédito, continuam guiando as ações. Até o mais convicto ateu se pega falando “graças a deus”.

– Tem razão, mas vamos à noite.

– Claro, tudo para não sermos vistos.

As horas teimaram em passar, mas o terror do que estavam por fazer não a deixou repousar ou desenvolver outra atividade. E se fossem pegos? Poderiam passar no noticiário, dada à raridade da cena dentro duma igreja.

Às dezoito horas eles se encontraram na frente da matriz, se beijaram e adentraram à casa do senhor. Algumas beatas nos genuflexórios com os olhos mirados na santa com enormes terços enroscados nas mãos enrugadas, nem notaram os dois jovens com roupas exóticas, tipos que dificilmente frequentavam igrejas ou quaisquer locais de expressão religiosa.

Separaram-se, ela se postou atrás do batistério e ele embaixo das mantas que adornavam o altar. O coração de ambos disparava mais do que quando perderam a virgindade, juntos, seis anos atrás. E como naquele dia, ele estava dominado pelo tesão, a vontade era de comê-la ali, agora, mas teria que esperar. Em alguns minutos a igreja estaria fechada e o plano seria executado perfeitamente.

Passaram-se duas horas até ouvir a porta pesada sendo fechada e uma barra de ferro sendo colocada pelo sacristão. Suas pernas formigavam devido à posição adotada, mas ainda precisariam esperar o barulho da segunda porta sendo fechada, e com ela a certeza que o guardião da igreja tinha ido dormir. Uma espera que durou mais duas angustiantes horas.

– Rápido, rápido. Trouxe o saco?

Destituíram a imagem do altar, ele friamente, ela um pouco chocada e remoendo previamente o que a avó falaria no dia seguinte quando toda cidade soubesse do sumiço da santa. Colocaram o sacro objeto em um saco de pano e saíram pela porta principal, com cara de quem não estava fazendo nada, abraçados. Estavam radiantes com a facilidade do roubo, aquela peça valeria muito dinheiro e assaltar igreja era mais fácil que banco, fariam disso sua especialidade.

– Não pagarei nada, é falsa.

O comprador lembrava bem da original, comprou na mão do padre da cidadezinha ao lado, anos atrás. Estes eram sempre os primeiros vendedores.

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14 comentários sobre “Primeiro sacrilégio

  1. ahuahauhauahuhauhauahauau Muito boa essa Grên… Como sempre, a malandragem vem atrás de várias malandragens por trás de quem vc menos espera, menos imagina… Queria saber o q ela pensou quando soube, já que estava achando que iria queimar no inferno hahahah

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