Quem é o mendigo?

Um cobertor. Um cobertor e um carrinho lotado de uma massa difusa de acúmulos diários. No rosto negro, a expressão é de ausência, suor, e recusa. Sentado no chão, o homem olha para um lugar que ninguém enxerga, a não ser ele. À sua direita as pessoas começam a sair da missa. Grupos mais e menos ruidosos vão esvaziando as vozes de dentro da matriz. Ele não esboça reação. Permanece sentado e olhando para onde só para ele interessa.

Um cachorro, pele e osso, se aproxima. Ele ameaça sorrir. O cão cheira ao redor e se aproxima, submisso. Alguns afagos contidos depois o cão se afasta. E o olhar volta para onde não se sabe.

Um homem, meia idade de culpa, vem, deposita algumas moedas perto do carrinho, meneia a cabeça, e sai fingindo discrição. Volta à sua família, e sua mulher passa a mão em seu ombro, terna, vagarosa. De um pulo, ao perceber a caridade, o homem levanta-se, pega as moedas, toca no ombro do caridoso e estende a esmola de volta.

– Você deixou cair isso no chão.

A meia idade de culpa se transforma em culpa e incompreensão: ele olha para o homem ali lhe estendendo as moedas de volta e não sabe o que fazer.

– Pega.

– Mas eu coloquei lá pra você, irmão.

– Irmão?

– É modo de dizer.

– Ah…

O silêncio amarga nos rostos de todos. O homem segura as moedas na mão espalmada, a expressão firme. Um constrangimento vai coçando nos olhos do outro. Curiosos se aproximam. Até que o constrangimento vira som.

– Eu só queria ajudar você porque-

– Por quê?

– Eu… Vi você ali e achei que-

– Achou?

O burburinho ao redor cresce. Meninos quase que homens de braços cruzados e risinhos farejam alguma confusão, alguma novidade por ali.

– Olha, amigo, eu não queria-

– Não?

– Se você não quer, tudo bem.

– Tudo bem?

– É, tudo bem, irmão.

O homem puxa uma das mãos do caridoso, vira a palma para cima e lá bate as moedas com o punho cerrado. Ao começar a viagem de volta ao cobertor estendido no chão se detém porque escuta o comentário espantado do caridoso para a família:

– Quem já viu isso? Um mendigo que não aceita esmola…

O homem vira-se em direção ao caridoso, se aproxima devagar. Os olhos duros.

– Eu pedi alguma coisa pra você?

– Não.

– Então quem é o mendigo?

– Amigo-

– Meu nome é Dermeval!

Ao redor, os curiosos puxam gritos de escárnio e uma salva de palmas empolgada, enquanto a família escapole pra longe dali. Dermeval vai para o seu lugar, senta-se, e mira seu olhar duro no lugar que ninguém sabe onde fica.

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19 comentários sobre “Quem é o mendigo?

  1. Um soco no estômago… porque ser previsível já virou moda e eu gosto do inusitado! Só me relaciono com gênios =) Parabéns Léo /

  2. Muito bom Leo! Transmitiu perfeitamente a sensação de não saber como agir diante de situações como essa, e de como achamos que pequenas ações podem acalmar a nossa consciência, como somos capazes de usar do outro para nos sentirmos aliviados…

  3. Quem fica feliz sou eu de receber tanta resposta boa… E “extraordinário” é um daqueles elogios que fazem a gente abrir um sorristo besta, Lea. Valeu a todos pelo carinho. E façam do Bordel um lugar sagrado nos olhos de vocês, pelo menos no tocante à frequência com que vocês voltem. Sigamos adiante!

  4. É que alguns não entendem que quem tem nada geralmente já tem tudo!
    Texto gostoso, hein thuthuco? kkkkkkkkkkk
    Dá para trabalhar em sala de aula facim facim… Leo, bora bora escrever mais porque agora vou catar meus recursos didáticos aqui! =p

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