Banquete

O animal estendido no chão: presente divino, convidando ao banquete. O cheiro da carne apodrecida indicava que ele estava ali há algum tempo, não fazia mal. A vida nas ruas não lhes permitia grandes escolhas.  Aquele animal a apodrecer sob o sol era iguaria rara que não poderia ser ignorada, tão pouco dispensada. Na verdade, era o melhor que eles haviam conseguido naquela semana, meio que incrédulos e tonteados pela fome, aproximaram-se um a um, vagarosamente. As chagas abertas na pele sofrida e suja atraíram moscas lambonas que displicentemente refestelavam-se no muco fresco, pondo seus ovos que em breve eclodiriam entre as larvas já existentes, elas evacuavam conforme mandava a necessidade, não há etiqueta entre os insetos. Mas as infortunes sabiam que era necessário dar espaço, seres maiores e mais famintos haviam chegado, caso não fossem rápidas poderiam ser facilmente devoradas junto aos nacos de carne. O grupo iniciou a refeição. Não havia fogo ou tempero, esses artifícios eram luxos jamais encontrados, as irrupções purulentas não faziam nojo à chaga que a fome abria no estômago. Comer. A vida é isso: uma sucessão de fomes jamais saciadas e é necessário que se coma, que se devore constantemente tudo, todos. É preciso digerir a carne, a alma, destrinchar o corpo, e depois, ao terminar, preparar-se para, faminto, comer outra vez. Cheiro de urina, álcool e suor, esse era o cheiro das ruas. O sol estava a pino, os que passavam apressados não se davam conta da beleza sublime daquela refeição, na verdade os que passavam jamais prestaram atenção ao que acontecia ali. As pessoas evitam olhar para os que existem nas calçadas, viadutos, becos e valas. Acontece que a vida impossível e persistente dos desafortunados é um lembrete de mau gosto à hipocrisia do nosso bem estar. Ceguemo-nos.

Ela chegou meio bêbada, ainda não estava de barato, o que a tornava insuportavelmente lúcida, olhou-o: compaixão e ódio. Espantou as ratazanas que se alimentavam das feridas pungentes, chutou-lhe de leve na altura do rim:

-Acorda! Homem, acorda!

– Anh, que foi? Porra, que você quer?

– Que eu quero? Não vê que esses malditos ratos estão abrindo essas crecas que você tem na perna de novo?

-Estão é? Nem dói mais. O que dói é a falta da pedra, você tem?

-Não, mas mais tarde tem. Vim porque precisava de homem.

-Homem? Sabe que eu esqueço que você é mulher… vem cá!

Comer. A vida é isso: uma sucessão de fomes jamais saciadas e é necessário que se coma, que se devore constantemente tudo, todos. É preciso digerir a carne, a alma, destrinchar o corpo, e depois, ao terminar, preparar-se para,  faminto, comer outra vez. Cheiro de urina, álcool e suor, esse era o cheiro das ruas.

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