Menos um mendigo

A massa d’água o arrastou como se fosse um graveto, na verdade não diferenciava muito de um. Os anos de fome o secaram como um arbusto desfolhado, levemente curvado (por vergonha ou à procura de algo no chão que pudesse ser útil), sem nenhum sinal de vida aparente. O encardido dos anos nas ruas o deram uma tonalidade marrom, eterna.

Gritos, choro e estrondos. Tudo abafava e voltava à medida que mergulhava e emergia, o mundo sustentado em madeira e papelão do morro ruíra facilmente como um tapa rápido usado para matar mosquitos. Gritos, choro e estrondos, num ciclo interminável, que durou dez segundos. Gritos, choro e estrondos.

Sentiu uma dor aguda, física. Não era permitido aos mendigos dores de alma. Seu corpo tinha se chocado contra algum pedaço de concreto e seu braço foi decepado. Não iria lhe fazer falta. Quantas vezes aquele braço ficou estendido, com a mão côncava e carcomida, a esperar alguma moeda ou pedaço de comida? Braços de esperar e não de abraçar são inúteis.

A força da água fez sua perna ser esmagada entre os entulhos. Essa poderia fazer falta. Quantas vezes correu assustado a noite de adolescentes que o queria incendiar ou da polícia que  distribuía cacetadas gratuitas e dolorosas? Mas hoje, ao ver o mundo d’água descendo a colina de barracos, as malditas pernas falharam e o colocaram naquele esgoto enorme de madeira, lama, móveis, sonhos e corpos, coisa que até então, milagrosamente, o seu ainda apresentava vida. Pernas de fugir e não de sustentar são inúteis.

Um vergalhão de ferro atravessou-lhe a barriga, esta passou a maior parte dos anos somente para digerir restos ou fazer ruídos de vácuo. Quantos dias não teve nada para triturar, engolir e o barulho não o deixara dormir? Barriga inútil.

Teve seus olhos perfurados. Quais belezas são vistas por olhos famintos e friorentos? Olhos de enxergar miséria são inúteis.

Perdeu a consciência. Teve nome, mas ninguém nunca o perguntou, teve sonhos que não era comer ou se cobrir, teve vida. Teve… Agora era apenas partes de corpo que ninguém faria o favor de juntar.

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4 comentários sobre “Menos um mendigo

  1. Visualizando a página completa via celular não aparece a autoria. Então, antes de acessar esta página específica deste texto eu comentei a Bella “aposto que este texto é de Grênivel!” 😛

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