Trapo

O cheiro de mofo subia cortando o caminho entre as mãos e o rosto. As mãos, calejadas de despreguiça, coçavam uma barba por fazer, que engatinhava até o peito, suado, cor de carvão. Caminhava sem pressa. O chapéu largo, arqueado, conferia um tom grotesco ao corpo curvado, como se o sol impusesse a reverência. Como se dobrasse pra perto do chão todas as vontades, toda coragem. Os pés varriam a terra pra frente, apontando pra fora do eixo. Em harmonia, os braços longos varriam o ar de trás das costas como se o conjunto precisasse de muita força pra seguir adiante no trecho de vida. Ao alcançar a pedra, que ardia de sol, pôs em cima dela alguns sonhos antigos, segredos guardados, caçou por ali alguma pedra menor, bem boa de quebrar o passado, levantou o braço acima das ideias e desceu com força sobre tudo antes. Os pedaços da vida que não alcançou se espalharam em estilhaços de pedra e cansaço. Fez o caminho de volta gastando a mão na parede verde que ladeava o caminho, tentando pensar em mais nada, só no vento que soprava entre as linhas do rosto, sacudindo a camisa branca de linho curtida de sol e saudade. Chegou à porta do Inferno, o buteco de todos os dias, abriu a carteira.

O cheiro de mofo subia cortando o caminho entre as mãos e o rosto. Ele amargava o mau cheiro na língua, batia as moedas na mesa e pedia:

– Desce a pior, que hoje o troco é pouco.

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5 comentários sobre “Trapo

  1. Ow, véi. Ler pelo celular a pagina principal é massa! Nao aparece a autoria, aí fico adivinhando de quem é. Até agora acertei todos hihi

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