Dinheiro

Permaneceu deitada enquanto ele, deixando o dinheiro sobre a cômoda, ia embora.
-Quinhentos reais, quer conferir?
– Não é preciso, confio em você. Só deixe onde eu possa ver.
– Enfim, tenho que ir, o banco hoje tá uma zona, início de mês. Como sempre, valeu cada centavo, mas se continuar subindo a tabela assim vai me quebrar.
-Ora, não é você mesmo quem diz que o melhor custa caro?
Ele sorriu, assentindo com a cabeça. Antes de passar pela porta olhou-a uma última vez. Magicamente conseguia ser ainda mais bela, úmida e cansada a recuperar o fôlego. Ele saiu batendo a porta.
Espreguiçou-se aliviada, ele era uma boa companhia. Ela que não gostava de ninguém tocando em seu corpo, na verdade tinha amor doentio a tudo o que lhe pertencia, e pelo seu corpo nutria uma avareza obsessiva, julgando ser quase um sacrilégio ter que permitir o toque alheio. O sexo a incomodava. Fazia por ser necessário, ser seu ofício e dever. Não era frígida, deleitava-se por longos momentos ao próprio toque, mas outro ser a invadir-lhe, a dominar-lhe e adentrar no seu mais íntimo recanto, lhe parecia inaceitável, se não fosse, é claro, por motivo de caráter comercial. Todavia, era formidável. Conseguia agradar o mais exigente conhecedor de mulheres, seu espírito empreendedor a fez enxergar nisso uma maneira de ganhar dinheiro. Pois o dinheiro sim, esse era sua verdadeira paixão. Talvez devesse esse sentimento ao seu pai, que era contador e por quem ela nutria amor e ódio equivalentes. Quando criança, ao vê-lo em meio a tantos papéis, sempre atarefado, sempre com pressa, sempre ocupado demais para dispensar-lhe um gesto de carinho, desejava-o morto, sangrando entre suas bonecas, enquanto servir-lhe-ia chá e biscoitos de fantasia. Uma gota de suor escorreu entre os seus seios, levantou-se preguiçosamente, precisava de um banho. Atravessou o quarto, porém deteve-se diante da cômoda, as cédulas simetricamente dispostas uma ao lado da outra, sorriu gulosa:
– Danilo, seu merdinha, você realmente sabe o que fazer para me agradar.
Tocou cuidadosamente as notas, espasmos de prazer a percorrer-lhe o ventre. Notas novas de cinquenta, suas favoritas. Suas pernas amoleceram, calor a sair de seu sexo, calafrios a percorrer-lhe a espinha e o bico dos seios, a mão obediente, sabia do caminho a percorrer.
Tomou um banho rápido, havia muito trabalho a fazer, queria ter estudado, ter feito faculdade, mas moça boa, assim lhe disseram, era moça que sabia manter a ordem em uma casa, agradar ao marido e cuidar dos filhos. Agora, aos 57 anos, sabia quão tola e submissa havia sido em aceitar com resignação esse traçado machista para as jovens do interior da sua época. Contudo era feliz. Os filhos ela havia criado tão bem, ao ponto de não precisar vê-los, exceto em datas festivas, cuja etiqueta solicitava reunião familiar. Tinha a vida boa e confortável das respeitáveis senhoras de classe média alta da sociedade baiana e Danilo, seu marido, cedia a todos os seus caprichos e disso ela se aproveitava largamente. Casara-se cedo, aos 16 anos, ele 12 anos mais velho já traçava uma carreira de sucesso no maior Banco da cidade e foi justamente esse trabalho no Banco, a proximidade dele com o dinheiro que lhe despertara paixão. Não era bonito, mas tinha aquele ar sedutor de homem que sabe das coisas. E o que para ela era melhor: aceitava suas excentricidades. Quando ela passou a cobrar os favores sexuais ele encarou com a mesma naturalidade que teria em aceitar uma taça de vinho ou um café após uma refeição. Ela já recebia uma mesada que supria todos os seus gastos supérfluos, mas o dinheiro da cama, como assim ela chamava, era dinheiro para ter, dinheiro para guardar, dinheiro que a fazia remoçar, sentindo-se viva e útil, sentindo-se vingada da obrigação do casamento, dos filhos indesejáveis e, sobretudo vingava-se da mão jamais amável do pai.
Anoiteceu, ela delegava as últimas tarefas à empregada, antes desta se retirar, uma brisa agradável adentrava sem convite, uma sensação boa dominava-lhe, deixando-a radiante e disposta. Sorriu ao lembrar-se do pedido dele e de sua constante recusa, mas por 4.000,00 reais, talvez…

Anúncios

9 comentários sobre “Dinheiro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s