Seis cores

Ele delirava em seis cores. O espectro formado por cédulas de reais enfileiradas era uma cena linda. Tinha verdadeiro fascínio em colecioná-las, aos montes. Na sua cabeça, valia qualquer coisa por dinheiro, até matar e roubar, não o fazia, apenas por medo de ser preso e das represálias que poderia sofrer na prisão.

Inúmeros seus momentos felizes com dinheiro, impossível relatar todos. Certa vez, seus olhos brilharam ao ver enrolada no chão uma nota de cem, correu ao seu encontro, abaixou sem disfarce: cheirou, beijou e guardou bolso, uma multidão acompanhava incrédula a cena tosca.

Não havia nada no mundo que amasse mais. A comida perdia o sabor ao se imaginar sem dinheiro. Ao comer sua mulher, o tesão aumentava infinitamente ao pensar na cama cheia de cédulas e moedas roçando-lhe o corpo. Sonhava com sua morte, o caixão ornamentado com flores feitas por todas as notas que acumulara ao longo da vida, e era assim que pretendia deixar o mundo. Mas se a esposa não realizasse esse seu último desejo?

Começou a prestar mais atenção na mulher. Ela sempre pedia dinheiro: comprar carne, leite, ir ao salão de beleza, mas todas essas coisas chegavam minguadas em casa. A observou por tanto tempo e nessa mesma perspectiva, chegou a uma infeliz constatação: sua esposa era avarenta, o defeito que ele mais odiava e certamente ela não atenderia seu último desejo.

A solução seria se livrar dela, não sabia como. Matá-la o levaria para prisão e não suportava a ideia de outros presos colocarem em risco a integridade do seu cu. A separação levaria junto metade do seu amado dinheiro. A impossibilidade da solução o fez odiá-la, e negar-lhe tudo foi o que sucedeu. Com sorte, ela sumiria de sua vida sem pedir nada. Terminou por passar meses sem tocar, olhar, falar com a sua ladra avarenta.

-Arrumei um emprego, ela disse mais por formalismo do que por necessidade de comunicar nada ao estrupício que tinha como marido. Avançou para cima dela e a beijou, calorosamente, pediu perdão e a fodeu pensando no salário que ela ia receber.

Voltou a amá-la e preparar sozinho seu mausoléu, com todos os seis tons escondidos para a tarefa de descansar eternamente ao lado daquilo que mais amava não dependesse de mais ninguém.

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9 comentários sobre “Seis cores

  1. Destaques para:
    “o tesão aumentava infinitamente ao pensar na cama cheia de cédulas e moedas roçando-lhe o corpo” e “não suportava a ideia de outros presos colocarem em risco a integridade do seu cu”. Fico imaginando o seguinte: será que esse cu tem preço? Será que por dinheiro o fiofó seria liberado?

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